O chão equaliza as forças afirmou Rickson Gracie. É democrático. Possibilita o menor e fisicamente mais fraco ganhar do mais forte. Por isso pudemos ver um mirrado Royce Gracie passar o carro em quem apareceu pela frente nos primórdios do UFC. A família disse que escolheram o menor irmão justamente para mostrar a superioridade do jiu-jitsu em relação às outras artes. Não entro no mérito da qualidade e profissionalismo dos adversários, ou da atitude arrogante do clã Gracie, mas Royce levou pra casa todos os braços e pescoços possíveis. Tornou o jiu-jitsu mundialmente conhecido e impulsionou um tipo de disputa que ainda em formação já é mais lucrativa que o tradicional boxe.
Na 6.a (?) edição do evento, com a mudança das regras limitando o tempo dos rounds, Royce abandonou a competição alegando que além de permitir que seus adversários lutassem de mãos vazias e atingissem praticamente qualquer parte do corpo, não poderia concordar em conceder ainda mais vantagens. Mas não importava mais. A arte suave já estava vendida como produto. Naquele momento já era indispensável para qualquer lutador das “artes marciais misturadas”.
Mistura que tirou certo romantismo desse formato de disputa. Apesar de hoje vermos super atletas completos, sabendo se comportar em qualquer situação de luta, seja com quedas, trocação ou chão, era muito bacana poder ver duelos de tal arte marcial contra outra. Por isso é muito interessante ainda poder assistir um Lyoto Machida lutar e trazer elementos novos com seu karatê. Sua postura de luta, seu jeito de golpear e não ser golpeado. Ou um Cung Lee com seus chutes plásticos e quedas do Sanshou/ Kung Fu.
No começo do século XX um artista marcial chinês, Huo Yuanjia, enfrentou diversos lutadores estrangeiros e venceu todos. Talvez uma das primeiras lutas registradas de MMA. Se tornou um herói nacional num tempo em que os chineses eram chamados de doentes asiáticos (recentemente sua história foi interpretada num bom filme de Jet Li, merecendo atenção especial a luta do bastão de três seções contra a espada japonesa!). Seu sistema de luta trouxe de volta um pouco de auto-estima ao povo chinês que na época havia sido tão castigado socialmente e economicamente. E permanece até hoje através da famosa Associação Chin Woo. Inclusive com filial no Brasil.
A arte-marcial é um bom instrumento pra mobilizar as pessoas. O brazilian jiu-jitsu é muito mais que uma ênfase das técnicas de ne-waza do judô. É uma especialização nossa. Reflexo de nossa criatividade e perseverança. Continua suave, sem socos ou chutes. Mas traz consigo a ideia de que mesmo uma situação ruim pode ser revertida. Mesmo estando por baixo ainda não acabou. Nos deixa orgulhosos de tantos campeões formados através de suas técnicas.
Hélio Gracie disse que por seu pequeno porte físico otimizou a alavanca. Que com um ponto de apoio, pela citação de Arquimedes, seria capaz de mover o mundo.
Naqueles primeiros anos da década de 90, o mundo saiu do lugar.
Minotauro contra Bob Sapp
Clipe da trilha do filme de Huo Yuanjia